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Consequências psicológicas, físicas e sociais do uso da tecnologia pelos bebês e crianças.

Como lidar com o avanço tecnológico que é intrínseco ao nosso cotidiano?


Somos de uma geração que, via de regra, só viemos a ter contato com a internet, computador, tablets e smartphones a partir da adolescência ou início da vida adulta e agora nos vemos frente ao desafio de educar as crianças que já nasceram em meio a toda esta tecnologia (Nativas Digitais). São várias as indagações que ouvimos frequentemente dos educadores, pais e responsáveis:

- A partir de que idade posso expor meu filho as telinhas?

- Por quanto tempo posso expor meu filho aos aparelhos eletrônicos, sem prejudicar sua saúde?

- Quais são os malefícios da exposição as telinhas sem critério a saúde do meu filho?

- Posso usar o celular, smartphone ou tablet enquanto estiver com o meu filho, sem prejudicá-lo?


Não pretendemos aqui ditar o que é certo ou errado, mas pretendemos: (i) abrir espaço para a reflexão e diálogo acerca das consequências psicológicas, físicas e sociais do uso da tecnologia pelos bebês e crianças, tendo como norte o que é preconizado e recomendado pela Sociedade Brasileira de Pediatria; (ii) entender quais são os desafios cotidianos em relação a este assunto; (iii) buscarmos alternativas possíveis para que nós e nossas crianças tenham a tecnologia como uma aliada e não como vilã.


São nos primeiros anos de vida que observamos que o cérebro possui maior plasticidade cerebral (capacidade do sistema nervoso de se reorganizar e adaptar as redes neuronais em resposta às demandas, sejam elas orgânicas ou ambientais), ou seja, uma capacidade aumentada do cérebro em se remodelar em função das experiências da criança na descoberta do mundo à sua volta. Para que o desenvolvimento neuro-psicomotor e nossas redes neurais se estruturem corretamente, o indivíduo tem etapas que devem ser cumpridas, com os estímulos adequados a cada fase do desenvolvimento.

Com isso, segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria, a superexposição às telinhas no período dos 0 aos 3 anos, onde o cérebro tem maior plasticidade e crescimento, pode gerar sérios danos como:


· Causar déficit de atenção, atrasos cognitivos, distúrbios de aprendizado, aumento de impulsividade e diminuição da habilidade de regulação própria das emoções ( isso vale para o decorrer de toda a infância).

· Problemas de socialização: a criança começa muitas vezes a se isolar e apresenta dificuldade de se relacionar/ brincar/conversar com outras crianças ou adultos.

· O uso excessivo das telinhas pode gerar distúrbios do sono o que é prejudicial ao desenvolvimento da criança.

· Problemas de audição por uso de headphones.

· Problemas posturais e lesões de esforço repetitivo (LER) devido ao uso excessivo de teclados ou dos controles de vídeo game.


O apego positivo e a relação amorosa que a criança estabelece com a sua mãe, seu pai e sua família, são fundamentais para o desenvolvimento do prazer nos relacionamentos futuros e a prevenção de muitos transtornos. Com isso compreendemos que para um desenvolvimento saudável do bebê e criança, as experiências precisam passar pelas relações humanas, o que pressupõe trocas afetivas. Então, este seria um primeiro ponto a pensar sobre o uso das telinhas pelos pequenos:


- É uma atividade solitária que pressupõe ausência de trocas afetiva com pessoas significativas.

- Diante das telas, o bebê e criança não colocam seu corpo em ação, ficam parados e isso faz com que eles não experienciem o mundo com todo seu corpo/potencial, isso prejudica seu desenvolvimento global/cognitivo.

- Até 2 anos, a pura imagem, além de não lhe ensinar nada (pois se traduz unicamente por movimentos em frente aos seus olhos) faz com que a criança não se movimente para pegar ou chutar um objeto, sendo assim, as crianças se movimentam menos e isso prejudica seu desenvolvimento psicomotor, assim como suas percepções do mundo como um todo.

- A criança que sofre superexposição das telinhas usa muito a visão para perto e não estimula a visão para longe.

- Ao ficarem atentos às telas as crianças perdem vivências de situações cotidianas necessárias para seu desenvolvimento físico, social e emocional. - Não precisam lidar com a espera pela comida chegar a mesa. - Não aproveitam o tempo de uma viagem para conversarem ou brincarem com os pais, além de não apreciarem as paisagens, o que dificulta que as crianças desenvolvam noção de tempo e espaço.

- Diminui a tolerância da criança em esperar para que as coisas aconteçam, dificulta a compressão de que tudo tem um tempo de maturação, sendo assim, não criam instrumentos internos para desenvolver a paciência, já que diante das telinhas elas não precisam esperar pelo que desejam.

As diretrizes da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) indicam:

- Desencorajar, evitar e até proibir a exposição passiva em frente às telas para crianças com menos de 2 anos principalmente durante as horas da refeições ou 1-2 h antes de dormir.

- Para crianças entre 2 a 5 anos de idade é recomendável o máximo de 1 hora por dia diante das telinhas.

- Crianças entre 0 a 10 anos não devem fazer uso de televisão ou computador nos seus próprios quartos. Devem ser respeitado o tempo mínimo de sono que é de 8 a 9 horas por noite( período de crescimento e desenvolvimento).

- Crianças menores de 6 anos precisam ser mais protegidas da violência virtual, pois não conseguem separar a fantasia da realidade. Jogos online com cenas de tiroteios com mortes ou desastres que ganhem pontos de recompensa como tema principal, não são apropriados em qualquer idade, pois banalizam a violência como sendo aceita para a resolução de conflitos, sem expor a dor ou sofrimento causado às vítimas, contribuem para o aumento da cultura de ódio e intolerância e devem ser proibidos.

É recomendável que os pais ou responsáveis estejam sempre por perto, afim de averiguarem a qualidade do conteúdo e indicação etária de tudo que a criança tem acesso.


Diante de tudo isso, o que podemos fazer, já que a tecnologia está no dia dia de nossas crianças?

Já foram ditos os motivos pelos quais a tecnologia pode ser nociva, assim como o tempo que cada faixa etária pode ficar em contato com as telinhas. Nem sempre é possível fazer como se preconiza e tudo bem, desde que seja realmente uma exceção e não uma regra. Muitas vezes os pais vão expor o filho de menos de 2 anos as telinhas, pois já tentaram muitas outras alternativas e todas foram frustradas. Cada mãe e pai sabem quais seus entraves diários e quais são as situações adversas que fazem com que eles lancem mão do uso da tecnologia. O importante é sempre se perguntar: já busquei outras alternativas? Quais são as possíveis alternativas ao uso da tecnologia?

Ao ir a um restaurante ou qualquer outra situação que exija que a criança fique parada esperando, sugerimos:

- Levar papel e lápis de cor e desenhe com seu filho.

- Levar um brinquedo predileto (jogo da memória)

- Estimular a imaginação e o vocabulário, lembrando por exemplo nomes de animais, nome de pessoas da família falar sobre as cores e números, faça isso de modo interativo.

- Explique para criança que ela precisa esperar a comida ficar pronta/ a viagem acabar. Acolha o que a criança está falando, mostre que você compreende que ela está chateada por ter que esperar, mas que você está ali com ela esperando também e que essa espera pode ser divertida. Explique que em algum momento essa espera irá acabar, comece a colocar a noção de tempo pra ela, mostrando o relógio ou fazendo qualquer outra menção que indique tempo.

- Leve um livro para ler para criança ( estimule a leitura, sempre que possível).

- Faça a criança entender que nem sempre terá o que fazer, comece a acostumar seu filho com tempos de ócio ( não ter nada com que se ocupar), pois é um momento que ele terá oportunidade de entrar em contato com ele mesmo e isso é muito importante para uma boa estrutura emocional.

- Com crianças mais velhas de 3 a 6 anos busquem conversar sobre acontecimentos cotidianos, perguntar sobre seus sonhos, sobre a escola e amigos. Este é uma forma de interagir com a criança, mostrar seu afeto e interesse por ela. Para isso os pais precisam também restringir o uso que eles mesmos fazem dos aparelhos.

- Por fim, pode haver momentos que mesmo diante de todos esforços os pais tenham que ceder o uso do smartphone, tabletes, computador e televisão, afinal eles fazem parte da realidade atual, mas busquem sempre usar com parcimônia e fiquem atentos ao conteúdo que seu filho tem acesso, proteja os aplicativos com senhas , caso seja possível.

- Crie oportunidade de brincadeiras ao ar livre que estimule o uso do corpo e da criatividade, assim, o smartphone NÃO será uma ÚNICA ferramenta para entreter seu filho, será SOMENTE mais UMA, com uso consciente e assistido a tecnologia pode ser uma aliada e deixar de ser vilã.


POR Camila Siqueira - Psicóloga e colaboradora do Abraça Infância.


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